falar sozinho
é meu embaraço
escrever
sobrepor traços
nada factual
conversa fiada
tudo do mesmo
saco
são os outros
ainda faço
média
ser humano
e palhaço
mas sou restos
todo inacabado
escasso
onde começo
onde termino
um espaço
vazio
falar sozinho
é meu embaraço
escrever
sobrepor traços
nada factual
conversa fiada
tudo do mesmo
saco
são os outros
ainda faço
média
ser humano
e palhaço
mas sou restos
todo inacabado
escasso
onde começo
onde termino
um espaço
vazio
telepatia, qualquer coisa
disso estou quase certo
dia que nega me disse
“minha boca é um deserto”
deduzi que era beijo
pensei que era esperto:
e ela só queria água
(mas até que cheguei perto!)
elas dizem
éles, dizem
anas, dizem elas,
elas dizem ama
eu digo enes,
elas dizem:
anda!
Não tinha nada grave. Uma gripe ou um resfriado qualquer. Ou uma infecção na gargante. Nunca soubera diferenciar ao certo. Escutou o som grave que o trem fazia quando estava vindo, olhando fixamente o espelho refletindo o bule de café e a cama desarrumada. Todas as coisas pelo chão e a banheira enchendo. Café colombiano ou javanês? Sabia que a Colômbia produzia bom café e boa cocaína. Ou pelo menos era isso que ouvira falar, junto com o Valderrama e Alvaro Uribe, enquanto Java dava nome à uma linguagem de programação, uma homenagem dos técnicos à seus insights cafeinógicos. Era um nome sem bandeira, sem presidente. Sem uma seleção. Mas era simpático. Já era noite e era seu último dia ali. Queria lembrar exatamente do som do trem, ter algum objeto para sua paranóia nostálgica. Mas agora ele se tornava agudo, fazendo-o lembrar do efeito doppler e das aulas de física, do avião e da ambulância. Âmbulância em Helvetica, vermelho sobre branco e invertido. Água torrente caindo sobre garfo e faca, um som agudo ritimado com a reflexão na prata dos talheres. Vermelho sangue e prata, o agudo das agulhas. Talvez deveria se despedir de alguma forma, deixando uma carta ou um bilhete para aqueles com quem se importava. Mas não havia ninguém com quem se importava ali. Fechou a torneira e percebeu o som da banheira; grave, profundo. Devia estar quase cheia e ainda não havia decidido pelo café. Colocou os talheres em cima do frigobar e caminhou em direção ao banheiro, para impedir o fluxo sonoro que saía do cano. Pode ouvir ainda mais claramente o som do trem, fazendo o caminho inverso para o grave mântrico. Entrou na banheira e fechou os olhos, submergindo aos poucos até esquecer o som do trem. Abriu os olhos e escolheu o café colombiano. Talvez pelo Valderrama, ou por Java não ter uma bandeira acenando dentro da sua mente. Não tinha nada grave e não sabia se tinha pensado nessa palavra pelo agudo do trem ou se o agudo do trem havia se antecipado cautelsosamente. Fechou a torneira da pia enquanto pensava na bagunça que teria que arrumar até a manhã do próximo dia, quando iria partir. Quase perdeu a introdução do som grave que o trem fazia quando estava distante, e sentiu-se vivendo uma mesma situação. Mas já estava na banheira, submergindo de olhos fechados, vagarosamente, enquanto seus ouvidos começavam a perceber os sons propagados através da água. Abriu os olhos e girou a maçaneta da porta, sem sucesso. Havia trancado-se para fora do quarto e teve que chamar um funcionário. Logo chegou uma camareira morena, seios fartos e cabelos negros. Sabia que era latina. Colombiana talvez? Nunca soubera diferenciar ao certo. Precisava de uma enfermeira também (e com seios fartos, claro). Com um daqueles quepes com uma cruz, vermelho sobre branco. Entrou no quarto e encontrou a banheira ainda semi-cheia (ou semi-vazia), o chão repleto de coisas que deveriam ser arrumadas até a manhã do outro dia, quando iria voltar. O som grave que o trem fazia quando estava vindo e talheres sujos em cima do frigobar. Abriu a torneira e começou a lavar os talheres, sendo interrompido dos seus pensamentos pelo som grave que o trem fazia, quando vinha pelo elevado. Estava meio febril, nada grave. Talvez uma infecção na garganta. Precisava de um café para manter-se acordado; ainda não havia arrumado a mala. O som agudo do trem sugeria uma escolha: javanês ou colombiano?
Os quadrados mágicos são diagramas conhecidos desde a antiguidade. O registro mais antigo remonta à China de 2207 a.C., onde o rei Da Yu encontrou nas margens do rio Lo um casco de tartaruga com desenhos inscritos, uma estrutura puramente imagética que, mais tarde, seria substituída por algarismos.
O quadrado mágico, do jeito que conhecemos, é um conjunto de números distribuídos simetricamente em linhas e colunas, de forma que a soma dos algarismos seja sempre a mesma, para todas as direções. O mais simples é o quadrado mágico que corresponde aos desenhos encontrados no casco da tartaruga e, posteriormente, chamado de quadrado mágico de 3 x 3 por Pitágoras:
3 5 7
8 1 6
Neste exemplo, percebemos que tanto as somas das linhas ou das colunas (bem como as diagonais) resultam em 15, considerado a constante do quadrado. A constante é o número que não é visível à primeira vista, mas que designa a posição de cada número dentro da matriz, agindo como uma espécie de “fio invisível” que amarra um algarismo no outro.
Existem diferentes métodos de resolução dos quadrados mágicos e eles remontam a idéia de algoritmos, uma sequência de tarefas que realizam determinada função. Por isso o estudo dos quadrados mágicos é comum para os que estudam linguagens de programação, além de ter ressonância no cubo mágico de Rubik, pois ambos sugerem um pensamento matemático, lógico e racional, demonstrando novamente que a linguagem precede o meio pelo qual se propaga.
A magia dos quadrados mágicos consiste em ter, ao mesmo tempo, uma análise qualitativa e quantitativa dos algarismos: além de possuírem um valor representativo de quantidade, relacionado diretamente ao número, o quadrado se refere a distribuição dos números dentro de um espaço, uma idéia organizacional, que, à primeira vista, assemelha-se ao completo caos (já que a lógica de construção se mantém oculta numa análise superficial).
Voltando aos desenhos econtrados por Da Yu no casco de tartaruga, notamos que a organização não era, aparentemente, relacionada com números, mas sim com elementos distribuídos no espaço. Alguns diagramas encontrados possuem letras, ao invés de números, como o caso do quadrado SATOR, de origem greco-latina:
A R E P O
T E N E T
O P E R A
R O T A S
Os elementos do quadrado se encontram firmemente amarrados, como se não pudessem estar em outra posição. Demonstra uma forte integração entre parte e todo, e por isso era considerado talismã por muitas culturas, sendo utilizados, por exemplo, na medicina sufi como forma de alcançar a cura. Segundo Sylvia Leite,
“(…) essas palavras produziriam uma vibração cósmica capaz de atrair, para o doente, a harmonia divina. (…) a expectativa de que o contato com a estrutura de um determinado arranjo possa, por simpatia, influenciar e, consequentemente, organizar o órgão ou tecido doente, propiciando a sua recuperação”. (LEITE, Sylvia. O simbolismo dos padrões geométricos da arte islâmica. pp. 43)
Ainda segundo a autora, essa crença era baseada na idéia de que uma doença seria o resultado de uma desorganização à nível celular.
Outro interessante aspecto do quadrado mágico é que, qualquer que seja a ordem ou a constante, contém algarismos que sugerem outros externos, como uma réplica espelhada de si mesmo. Vejamos por exemplo o quadrado de 3 x 3, espelhado em torno de si mesmo:
Os quadrados preenchidos levemente com tom acinzentado demonstram que outros quadrados passam por dentro do quadrado central. Ele não sugere apenas uma organização dentro de si mesmo, mas uma organização que é multiplicidada em torno de si, demonstrando que os algarismos também se relacionam com outros, aparentemente invisíveis, assim como a constante do quadrado.
Quando analisamos os quadrados mágicos através dessa perspectiva, percebemos que podemos considerá-los tanto como parte ou como todo, dependendo apenas da escala em que o observamos. Novamente, se fizermos uma observação ainda superficial, sem considerar a soma dos algarismos, podemos ver nessa nova escala uma certa ordem que não aparecia no quadrado isolado.
Faz-se necessário nesse momento compararmos a idéia subjetiva dos quadrados mágicos com o que traduzem os fractais. Essas formas de terrível beleza possuem simetria em escala, ou seja, por mais que nos aproximamos ou nos afastamos da imagem, temos a impressão de sempre estar no mesmo lugar, pois as estruturas são replicadas infinitamente para dentro e para fora de si mesmas.
Assim acontece com os quadrados mágicos, que ao serem replicados num plano bidimensional, demonstram uma interconexão entre os elementos, uma simetria assimétrica que transcende o que é observado à primeira vista. Esse fenômeno acontece na natureza, quando observamos estruturas em diferentes escalas: a distribuição das árvores em uma floresta, quando nos encontramos dentro dela, pode nos parecer caótica e desordenada. No entanto, ao sobrevoar a floresta com um helicóptero, percebemos que as árvores seguem uma certa ordem, e que, como elementos, estão posicionadas exatamente no lugar onde deveriam estar, assim como os algarismos contidos dentro dos quadrados mágicos.
Essa organização natural não é feita racionalmente, mas segue o fluxo dos fios invisíveis que podem ser descritos cientificamente, se tivermos controle sobre as inúmeras variáveis que determinam essa organização. Em contrapartida, a própria organização é uma variável dentro do processo, ao passo que também determina as variáveis que são por ela influenciadas. Podemos exemplificar isso utilizando a mesma idéia da distribuição das árvores em uma floresta:
Um pássaro é uma variável, ao passo que transporta sementes que são largadas em diferentes lugares dentro da floresta. Outros agentes polinizadores como insetos, o vento e a chuva também influenciam na organização e distribuição das árvores. Ao mesmo tempo, esses agentes são influenciados por estas: a árvore se torna abrigo para pássaros e insetos, além de ser uma barreira natural para o fluxo do vento e das chuvas. Todas essas variáveis ainda conversam e são responsáveis pelo clima da região. Por isso, qualquer alteração em uma das variáveis se torna uma bola de neve. É essa a idéia do efeito borboleta.
Assim como nos quadrados mágicos, a imagem que temos ao sobrevoar uma floresta é apenas um resultado do que realmente existe por trás dessa configuração. Podemos até enxergá-la como um todo, mas ainda, em uma escala ainda mais distante, veremos que é uma variável juntamente com outras vegetações espalhadas pelo planeta.
Nas experiências que tive durante minha vivência universitária, percebi que existem duas formas de se chegar à solução de um problema. A primeira diz respeito à experiência direta, a convivência com o problema até encontrar a fórmula mais adequada para ser aplicada. A segunda é relacionada com o aprendizado teórico, análises de compilações científica de resultados e fórmulas desenvolvidas e experimentadas por terceiros.
O pensamento inerente à esses dois caminhos é claro: enquanto a teoria generaliza e agrupa os padrões de problemas, a prática sugere que cada problema é uma situação específica. Quando realizamos um projeto, estamos, na verdade, transformando teorica em prática e vice-versa, criando assim uma sequência de colisões entre os dois pensamentos.
Quando uma fórmula teórica é aplicada à um determinado problema, estamos transformando o pensamento teórico no pensamento prático, ou seja, testando determinada fórmula na resolução da equação. O inverso acontece em duas situações específicas:
a) quando a fórmula necessita de alterações para comportar a solução do problema;
b) quando a fórmula é desenvolvida através da experimentação prática.
Qualquer uma das duas situações descritas acima possibilitam o contínuo desenvolvimento da técnica, evidenciando a flexibilidade da estrutura formal. Na primeira situação, parte-se de uma concepção formal que aproxima o problema em questão da suposição sugerida pelo autor teórico. A cadeira está mais perto de um banco do que de um livro ou de um vídeo, portanto, são soluções que partem de um problema em comum: a necessidade de um apoio para se sentar.
Podemos considerar o banco como uma fusão de várias cadeiras, generalizando as duas situações-problema. Seria quase o mesmo que aplicar a fórmula exata de um problema em outro, apenas repetindo operações e obtendo como resultado uma cadeira alongada na sua extensão. Sabemos, no entanto, que existem diferenças substanciais entre sentar-se sozinho e acompanhado: a primeira, mais óbvia, é a falta de apoio para os dois braços quando sentamos em um banco de praça ou numa cadeira de cinema.
É necessário compreender as diferenças entre as situações que giram em torno do problema. São essas especificidades que determinam a fórmula à ser aplicada. O excesso de racionalização, porém, tenta compreender os problemas em uma fórmula quase universal, e foi o que aconteceu no design gráfico durante o modernismo, na busca de um estilo universal.
Apesar da liberdade criativa do pós-modernismo, essa racionalização extremada acontece até os dias de hoje, por baixo das tintas e pixels que cobrem as superfícies, bastando realizar que a forma do monitor não difere muito da forma dos quadros de séculos atrás. Tratam-se de dois problemas, duas situações distintas em que a fórmula aplicada sugere que ambos estejam sendo tratados como uma mesma coisa.
Mais próximo do nosso universo do design gráfico, observamos o contínuo crescimento na publicação de impressos para todos os fins, desde objetos mais duráveis como livros até os mais perenes, como flyers e cartões de visita. O objetivo de informar é o mesmo, mas os problemas são diferentes: a informação contida no livro é substancial e foge à dimensão do papel, por isso se tornou uma solução portátil para carregar uma quantidade limitada de informação, um objeto tridimensional que pode ser sacado a qualquer momento para ser lido ou servir de calço para uma cadeira.
Já os flyers e os cartões de visita são breves recados bidimensionais. Apesar do grande desenvolvimento e popularização da comunicação através da internet, continuam sendo impressos gerando dinheiro para o mercado gráfico e empresas de celulose (além de algumas toneladas de lixo para o meio-ambiente). Em tempos onde até mesmo os livros correm o risco de serem relegados à condição de raridade, os impressos bidimensionais continuam tomando as ruas, demonstrando que não apenas adequamos soluções à problemas, mas muitas vezes desenvolvemos os problemas à partir das soluções.
Esse processo inverso, que desenvolve cadeiras esticadas e lembretes como se fossem livros, é interessante do ponto de vista mercadológico: produz-se mais rapidamente, em grande quantidade e com as vias de circulação de capital já determinadas. Ou seja: para um flyer chegar até as mãos do consumidor, precisa ser concebido pelo designer (muitas vezes diretamente no ambiente virtual, onde é preparado para ser impresso). Enquanto isso, a matéria prima utilizada na impressão é produzida pelas empresas de celulose, que vendem o material para as gráficas, onde o flyer se torna real.
Manter a informação no ambiente virtual é o processo mais prático (e, possivelmente, mais efetivo) de comunicação, já que a informação vêm nascendo, muitas vezes, neste mesmo espaço. O esforço em materializar a informação no universo tridimensional precisa ser justificado (como o é no caso dos livros, enquanto ainda não descobrimos um meio mais econômico e confortável de se fazer a leitura dessa informação).
A utilização desnecessária de papel é apenas um dos muitos exemplos que podem ser citados aos analisarmos o processo inverso de desenvolver o problema à partir da solução. É um processo de mercantilização das idéias, promovendo a reprodução infinita de soluções que não mais cabem na realidade em que vivemos, mas que continuam sendo repetidas por pura conveniência do mercado. Isso acaba sendo refletido no método de ensino executado nas salas de aulas, onde, ao invés de aluno e professor buscarem uma solução nova para problemas novos, busca-se a repetição exaustiva de velhas fórmulas numa relação quase unidirecional, onde o teste prático funciona apenas como confirmação da teoria apreendida pelo aluno e professor.
Esse processo de dogmatização da ciência encerra muitas perguntas, que são as sementes dos problemas reais. A esterilização das perguntas é uma forma de manter-se próximo à um conjunto de ferramentas que devem ser aplicadas para determinadas funções, tornando invisível qualquer problema que não tenha uma solução pré-desenvolvida. Quando esses problemas aparecem, costumam ser reduzidos para que ofereçam melhor encaixe à ferramenta, ao invés de serem desenvolvidos em sua totalidade, ou seja, com a subversão das funcionalidades primárias das ferramentas disponíveis ou com a criação de uma nova ferramenta adequada à situação-problema.
A experimentação possibilita, além da compreensão do problema, entender como se chegou a determinada teoria. A teoria não deve substituir a experiência e muito menos tornar-se uma verdade absoluta quando testada formalmente. É preciso sempre manter-se no limiar entre teoria e prática, sem deixar-se seduzir pelas convicções insípidas das partes isoladas. Problematizar é tomar o problema como seu, dividir com ele as mesmas condições que o fizeram emergir no universo, tornando-o assim passível de uma solução simples. Logo que compreendemos o mecanismo estrutural, enxergamos a solução em si mesma.