Espelhos.

Era uma mulher. Sentia-se toda mulher, no auge dos seus 35 anos. Vivia com o marido em um bairro nobre qualquer da cidade, num apartamento que reunia todo conforto e libido permitidos à uma mulher moderna. Era um furor sexual e tinha experiência acumulada de sobra, num corpo que ainda desprendia o cheiro e o calor da juventude. Mas não se enganava: envelhecer era um tormento e se negava aceitar a materialidade do seu corpo. Talvez por isso tenha notado aquela garota, em um dia quente onde todos pareciam derreter em meio ao silêncio caótico da cidade. Mas ela estava lá, radiante em seu vestidinho azul-claro. Impossível determinar a transparência do vestido. A garota atravessou a rua, esbanjando seu corpinho e sua vitalidade (ainda intacta na juventude dos seus prováveis 17 anos). Era uma bela idade para um belo corpo, e vice-versa. Não precisava de muita experiência, e, de certo, não deveria ter. “Era melhor pensar assim”. Acompanhou-a com os olhos durante alguns segundos, os poucos dos quais a garota precisou para chegar até a porta do condomínio onde ambas moravam.

Já em casa, deitou-se no sofá e tentou pensar em uma melhor composição para sua coleção de cerâmica. Não era sua, de fato. Era como algo da família, que já havia sido da sua avó, da sua mãe, e, agora, chegava às suas mãos, quase como uma dívida post-mortem. Suas curvas, as curvas da cerâmica, as curvas da garota… Tudo se fundia em um emaranhado de pensamentos, que faziam-na desejar a jovem como quem deseja a si mesma. Correu à janela e viu a garota deitada em sua cama, folheando uma revista de um lado para o outro. Resolveu, então, tomar um banho e esquecer um pouco daquilo tudo. A coleção de cerâmica tinha olhos reprovadores.

Continuava assim sua vida de mulher moderna: trabalho-casa, casa-trabalho. Depois do primeiro encontro com a jovem, iniciou-se uma série de outros encontros inesperados enquanto caminhava pelo bairro. Parecia que de alguma forma o universo das duas se tocavam, sem que houvesse qualquer aproximação física. Outros encontros, no entanto, só se realizavam através do enquadramento da janela. E eram esses encontros os mais significativos para a mulher, onde podia exercer o seu papel de Deus sem qualquer tipo de recriminação. Havia virado uma atividade de pura observação, assim como a cerâmica a permitia. Conhecia de cor o corpo da garota e às vezes gargalhava sozinha, imaginando o absurdo de conhecer mais o corpo de uma estranha do que o seu próprio.

Uma noite, voltou à janela para mais alguns minutos da sua divina observação. Encontrou um cenário silencioso, com as luzes todas apagadas, como se não houvesse ninguém em casa. Subitamente, a luz do quarto da jovem se acende e um casal entra em cena: a garota, com seu vestidinho azul-claro e, para a surpresa da observadora, seu próprio marido. O que faria o seu marido no quarto da jovem era algo que seria respondido nos próximos minutos. Pode então, pela primeira vez, ver seu próprio personagem agindo. Trepava com seu marido, na sua frente. A impotência do momento, que era algo de aterrador para ela e sua coleção de cerâmica, se transformou aos poucos em excitação, levando-a a participar do momento, quase como num ménage à trois telepático. Ela, o marido e a jovem, conectados de uma forma estranha e prazeirosa. A garota não parecia menos experiente e, ela, não menos atraente e segura. Seguiram juntos a aventura, até que, entre gemidos, seus olhos se encontraram com os olhos da jovem. Havia tanta cumplicidade nesse momento, que o gozo explodiu em algo etéreo e pluri-dimensional. Inexplicável (…) Envergonhada, a garota corre e fecha as cortinas. A mulher, cansada e feliz, deixa-se tombar na cama, sendo providencialmente abraçada pelo marido, que nunca havia reparado que uma garotinha de vestido azul-claro morava logo à frente.

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