Símbolos.

Os símbolos estão por todos lugares; são as representações das formas pelas quais o mundo é codificado. Existem de forma imaterial – apenas no campo das idéias, como os arquétipos de Jung – em conjunto com as suas representações no mundo atual/real, aparecendo desde as inscrições paleolíticas nas cavernas de Lascaux, no desenvolvimento da escrita (tanto a pictográfica quanto a alfabética), até a utilização industrial racionalizada ao extremo.

Aniela Jaffé sugere três diferentes aspectos da relação dos homens com os símbolos, representadas pela pedra, pelo animal e pelo círculo. Ao dispor as pedras em determinadas posições, na tentativa de conferir maior valor do que já atribuido pela natureza, o homem transfere um significado psíquico à pedra, criando assim um equivalente externo à um símbolo inconsciente, como no caso do Stonehendge e dos jardins zen.

Antigos acreditavam que as pedras eram moradas de espíritos, enquanto o budismo confere ao reino mineral um certa consciência. Se considermos a consciência como uma multiplicidade e não um enraizamento, ou seja, um aglomerado de informações entre o homem e o meio (duas multiplicidades), poderemos compreender o símbolo como uma projeção da mente humana, um mediador entre os diferentes múltiplos. Assim a pedra ganha um novo novo valor e um equivalente no inconsciente humano.

O homem também se relaciona com os animais de forma simbólica. Sociedades tribais utilizam as figuras animais como a representação de diferentes estágios e comportamentos humanos. Jung reafirma a existência da “alma do mato”, ou um equivalente natural à consicência humana, podendo ser um pássaro, um rio, uma árvore… Esse equivalente estaria ligado à alma humana do indivíduo, conferindo certas capacidades através dessa relação mutualista. Os animais também aparecem nos pictogramas egípcios, nos mitos gregos, nas fantasias africanas e em sacrifícios. Surgem também nos antigos desenhos das cavernas, estabelecendo relações entre a imagem do animal e o seu equivalente atual/real, sugerindo uma certa projeção de um acontecimento: acredita-se que os antigos alvejavam a imagem do animal em rituais para garantir, através da antecipação simbólica do evento, o sucesso da caça.

A relação com o círculo é a mais interessante por não possuir um equivalente no mundo natural, senão à partir de formas que sugerem os círculos (como o Sol visto da Terra, ou ainda a íris humana). A concepção do círculo é abstrata, sendo conveniente relacioná-la então à um arquétipo mental: o círculo como unidade invisível, representação do todo indivisível. O círculo nasce, então, de uma concepção abstrata, que se faz presente no real apenas como símbolo.

À pesquisa interessa essa última relação, nascida da abstração. É assim que se configuram os símbolos alfabéticos, os mosaicos islâmicos de La Alhambra e os estudos de formas realizados por Mondrian e Kandinsky, entre outros artistas modernos: expressões que retomam o invisível – ou o que pode ser visto apenas com os “olhos internos” -, símbolos de transcendência que intermediam a relação entre as diferentes multiplicidades, idéia que tem início com a primitiva concepção do círculo.
É impossível determinar o momento exato em que o ser humano introduziu o conceito do círculo na sua consciência. Estima-se ser um conceito muito primitivo, que acompanhou a idéia das outras figuras geométricas, tendo como ressonância a abstração numérica e o surgimento dos primeiros alfabetos. A consciência humana se diferencia de outros tipos de consciências pela capacidade intrínseca de abstrair; de abstrair da abstração. Os símbolos, presentes na consciência como equivalentes do mundo atual/real (e vice-versa), intermediam a relação do homem com a natureza, ao passo que esse distancia-se desta para melhor observá-la.

Paulo Beneito escreve sobre a ciência dos símbolos ser, de fato, uma ciência exata. Afirma ainda que a ciência dos símbolos é, por excelência, a ciência da interpretação das ciências. Abre assim um precedente para imaginar o pensamento estruturado através das relações estabelecidas pelos símbolos, sejam eles abstratos ou imagéticos: um campo de símbolos que ligam-se uns aos outros e à idéias mais complexas, semelhante ao rizoma descrito por Deleuze. Classificando-a assim – como uma ciência exata -, faz subentender que o símbolo transcenda a cultura e que não seja necessária uma convenção para que o símbolo seja interpretado, agindo também como índice na semiótica pierciana, ao apontar para si mesmo.

Os símbolos que podem ser mensurados – aqueles que interessam ao estudo – são os símbolos geométricos mais estruturais: o círculo, o quadrado, o versica-piscis e o triângulo. Do círculo retira-se o quadrado, e, consequentemente, o triângulo. A rotação e sobreposição dessas figuras por elas mesmas, geram novas figuras polimorfas, que sugerem novamente o círculo. O versica-piscis é a sobreposição de dois círculos, de onde também retira-se o quadrado e o triângulo. São, por assim dizer, os símbolos básicos da linguagem imagética, do pensamento estruturado pela imagem. Além disso, são estruturas básicas que possuem certas qualidades inerentes à forma, possibilitando que se faça uma relação com os conceitos mais básicos, como a idéia de unidade e de múltiplos, atribuídos à capacidade imaginativa da consciência humana.

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