Meiose.

Como qualquer outra ferramenta, uma fonte possibilita vários usos além dos previstos no processo de desenvolvimento. A utilidade é assim determinada pelo usuário, que tanto pode seguir as orientações do desenvolvedor quanto subverter o uso. A idéia da Meiose pode ser considerada uma forma de subversão ao estilo tipográfico clássico e, até mesmo, dos preceitos modernistas, visto que abandona totalmente a compreensão literal.

Seria fantástico poder ler o texto que existe por trás da imagem. Mais incrível ainda seria se texto/imagem dividissem o mesmo valor semântico. No entanto, trata-se de algo momentaneamente inviável, já que homem e máquina ainda não concordam em todas as coisas. A leitura digital das máquinas, extremamente racional, não permite meias interpretações, ao passo que a leitura analógica abre porta para possibilidades com as quais as máquinas ainda não lidam. Hoje só conseguimos pensar em implantar um scanner a um ser humano ou um par de olhos à máquina. No entanto, a solução pode estar na linguagem, na forma com que homem e máquina interagem.

Os códigos QR começam a ser utilizados como uma tentativa de viabilizar uma comunicação que utiliza a leitura de um software (de celular, por exemplo) para transcodificar a mensagem por trás da imagem. É uma iniciativa interessante e a imagem que resulta possui uma beleza estética inerente à distribuição matemática dos quadrados realizada durante o processo de codificação. A linguagem, porém, continua extremamente digital e impossível de ser lida sem um intermediador.

Cabe aqui falar dos códigos de programação que se assemelham à linguagem humana, tais como get, go to, if, else, entre outros. Seria um contraponto aos códigos QR, mas sabemos que a máquina não se dobra ao homem à esse ponto. A informação inserida é transformada em bits, simplificada ao zeroeum maquinal. Podemos considerar até mesmo a invenção da escrita como o início de um pensamento que caminha para o digital, ao passo que simplifica e racionaliza a linguagem tornando-a quase uma equação matemática.

Os irmão Augusto e Haroldo de Campos vislumbraram a existência de uma poesia matemática que nunca chegou a existir (como previsto por Ferreira Gullar, que defendia a subjetividade inerente ao processo de criação artístico). Era essa a principal dissidência entre os poetas concretos paulistas e cariocas, respectivamente. Neste momento, a arte chegou ao seu limite, e o que nós, das novas gerações, podemos observar, são apenas os estilhaços do que um dia foi a arte.

Começou-se a tomar partido através das diferentes bifurcações pelas quais a arte se dividiu, largas e espaçosas rodovias que se transformam nos mais pequenos becos. A questão espacial, no entanto, é novamente discutida com o surgimento do espaço virtual possibilitado pela Internet, que elimina os muros que até então separavam os diferentes caminhos. É a mais clara formalização do pensamento rizomático de Delleuze e Guattari, multiplicidades que se conectam nas pontas dos dedos, quase fisicamente.

O que vemos hoje é uma nova organização da informação, agora disponível independente do espaço físico. Assim como o espaço começa a desaprecer, começamos a viver também a desintegração do tempo, fazendo-me supor que, nas próximas gerações, estejamos vivendo por situações digitais que não pertencerão nem ao passado e nem ao futuro. Daí então, talvez solucionaremos a questão da arte, que ficou indefinida desde o fim do modernismo, onde torna-se objeto de si mesma. Serão tempos em que já teremos colado novamente os pedaços, não só da arte, mas dos outros conceitos que foram lentamente destroçados no nosso gratificante exercício de subverter valores.

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