Pensamento prático e pensamento teórico.

Airmetica's stop-motion video.

Nas experiências que tive durante minha vivência universitária, percebi que existem duas formas de se chegar à solução de um problema. A primeira diz respeito à experiência direta, a convivência com o problema até encontrar a fórmula mais adequada para ser aplicada. A segunda é relacionada com o aprendizado teórico, análises de compilações científica de resultados e fórmulas desenvolvidas e experimentadas por terceiros.

O pensamento inerente à esses dois caminhos é claro: enquanto a teoria generaliza e agrupa os padrões de problemas, a prática sugere que cada problema é uma situação específica. Quando realizamos um projeto, estamos, na verdade, transformando teorica em prática e vice-versa, criando assim uma sequência de colisões entre os dois pensamentos.

Quando uma fórmula teórica é aplicada à um determinado problema, estamos transformando o pensamento teórico no pensamento prático, ou seja, testando determinada fórmula na resolução da equação. O inverso acontece em duas situações específicas:

a) quando a fórmula necessita de alterações para comportar a solução do problema;

b) quando a fórmula é desenvolvida através da experimentação prática.

Qualquer uma das duas situações descritas acima possibilitam o contínuo desenvolvimento da técnica, evidenciando a flexibilidade da estrutura formal. Na primeira situação, parte-se de uma concepção formal que aproxima o problema em questão da suposição sugerida pelo autor teórico. A cadeira está mais perto de um banco do que de um livro ou de um vídeo, portanto, são soluções que partem de um problema em comum: a necessidade de um apoio para se sentar.

Podemos considerar o banco como uma fusão de várias cadeiras, generalizando as duas situações-problema. Seria quase o mesmo que aplicar a fórmula exata de um problema em outro, apenas repetindo operações e obtendo como resultado uma cadeira alongada na sua extensão. Sabemos, no entanto, que existem diferenças substanciais entre sentar-se sozinho e acompanhado: a primeira, mais óbvia, é a falta de apoio para os dois braços quando sentamos em um banco de praça ou numa cadeira de cinema.

É necessário compreender as diferenças entre as situações que giram em torno do problema. São essas especificidades que determinam a fórmula à ser aplicada. O excesso de racionalização, porém, tenta compreender os problemas em uma fórmula quase universal, e foi o que aconteceu no design gráfico durante o modernismo, na busca de um estilo universal.

Apesar da liberdade criativa do pós-modernismo, essa racionalização extremada acontece até os dias de hoje, por baixo das tintas e pixels que cobrem as superfícies, bastando realizar que a forma do monitor não difere muito da forma dos quadros de séculos atrás. Tratam-se de dois problemas, duas situações distintas em que a fórmula aplicada sugere que ambos estejam sendo tratados como uma mesma coisa.

Mais próximo do nosso universo do design gráfico, observamos o contínuo crescimento na publicação de impressos para todos os fins, desde objetos mais duráveis como livros até os mais perenes, como flyers e cartões de visita. O objetivo de informar é o mesmo, mas os problemas são diferentes: a informação contida no livro é substancial e foge à dimensão do papel, por isso se tornou uma solução portátil para carregar uma quantidade limitada de informação, um objeto tridimensional que pode ser sacado a qualquer momento para ser lido ou servir de calço para uma cadeira.

Já os flyers e os cartões de visita são breves recados bidimensionais. Apesar do grande desenvolvimento e popularização da comunicação através da internet, continuam sendo impressos gerando dinheiro para o mercado gráfico e empresas de celulose (além de algumas toneladas de lixo para o meio-ambiente). Em tempos onde até mesmo os livros correm o risco de serem relegados à condição de raridade, os impressos bidimensionais continuam tomando as ruas, demonstrando que não apenas adequamos soluções à problemas, mas muitas vezes desenvolvemos os problemas à partir das soluções.

Esse processo inverso, que desenvolve cadeiras esticadas e lembretes como se fossem livros, é interessante do ponto de vista mercadológico: produz-se mais rapidamente, em grande quantidade e com as vias de circulação de capital já determinadas. Ou seja: para um flyer chegar até as mãos do consumidor, precisa ser concebido pelo designer (muitas vezes diretamente no ambiente virtual, onde é preparado para ser impresso). Enquanto isso, a matéria prima utilizada na impressão é produzida pelas empresas de celulose, que vendem o material para as gráficas, onde o flyer se torna real.

Manter a informação no ambiente virtual é o processo mais prático (e, possivelmente, mais efetivo) de comunicação, já que a informação vêm nascendo, muitas vezes, neste mesmo espaço. O esforço em materializar a informação no universo tridimensional precisa ser justificado (como o é no caso dos livros, enquanto ainda não descobrimos um meio mais econômico e confortável de se fazer a leitura dessa informação).

A utilização desnecessária de papel é apenas um dos muitos exemplos que podem ser citados aos analisarmos o processo inverso de desenvolver o problema à partir da solução. É um processo de mercantilização das idéias, promovendo a reprodução infinita de soluções que não mais cabem na realidade em que vivemos, mas que continuam sendo repetidas por pura conveniência do mercado. Isso acaba sendo refletido no método de ensino executado nas salas de aulas, onde, ao invés de aluno e professor buscarem uma solução nova para problemas novos, busca-se a repetição exaustiva de velhas fórmulas numa relação quase unidirecional, onde o teste prático funciona apenas como confirmação da teoria apreendida pelo aluno e professor.

Esse processo de dogmatização da ciência encerra muitas perguntas, que são as sementes dos problemas reais. A esterilização das perguntas é uma forma de manter-se próximo à um conjunto de ferramentas que devem ser aplicadas para determinadas funções, tornando invisível qualquer problema que não tenha uma solução pré-desenvolvida. Quando esses problemas aparecem, costumam ser reduzidos para que ofereçam melhor encaixe à ferramenta, ao invés de serem desenvolvidos em sua totalidade, ou seja, com a subversão das funcionalidades primárias das ferramentas disponíveis ou com a criação de uma nova ferramenta adequada à situação-problema.

A experimentação possibilita, além da compreensão do problema, entender como se chegou a determinada teoria. A teoria não deve substituir a experiência e muito menos tornar-se uma verdade absoluta quando testada formalmente. É preciso sempre manter-se no limiar entre teoria e prática, sem deixar-se seduzir pelas convicções insípidas das partes isoladas. Problematizar é tomar o problema como seu, dividir com ele as mesmas condições que o fizeram emergir no universo, tornando-o assim passível de uma solução simples. Logo que compreendemos o mecanismo estrutural, enxergamos a solução em si mesma.

2 Respostas

  1. Um dia eu disse que o fato de o sistema de ensino do nosso curso ‘ser podre’ é positivo porque, no final das contas, a gente consegue alcançar esse ponto de trabalhar e perceber tanto o pensamento prático quanto o teórico. Lógico que isso pode soar engraçado, ainda mais vindo de mim, mas não acontece isso realmente? Quem foi o gênio que pensou esse sistema? E quantos dos alunos conseguem alcançar isso?

  2. Reescrevendo:

    Um dia eu disse que o fato de o sistema de ensino do nosso curso ‘ser podre’ é algo positivo. Disse isso porque, no final das contas, a gente consegue alcançar esse ponto de trabalhar e perceber tanto o pensamento prático quanto o teórico. Lógico que isso pode soar engraçado, ainda mais vindo de mim, mas não acontece isso realmente? Quem foi o gênio que pensou esse sistema? E quantos dos alunos conseguem alcançar isso?

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